BOOM FESTIVAL 2016 - 11th EDITION

Versão Portuguesa

Amig@s Boomers

No momento em que vos estamos a escrever vivemos duas situações que marcam o passado, presente e futuro do Boom Festival. Uma parte da nossa equipa está a terminar a desmontagem e pós-produção da edição de 2016; outros elementos assinaram há dias atrás o contrato de aquisição da Boomland. É um misto de sensações que vivemos. Um cansaço profundo mas repleto de felicidade pelo que aconteceu na Lua Cheia de Agosto; a sensação de dever cumprido ao dar ao Boom uma casa após sete anos de muito trabalho e resiliência para o conseguir, 19 anos volvidos do seu nascimento.

À velocidade voraz que a vida hoje se desenrola estes momentos fazem-nos reflectir. Por isso vos enviamos esta carta.

Amiúde relembramo-nos do filósofo Jürgen Habermas com a sua análise crítica à sociedade. Ele defende que qualquer sociedade depende da crítica de si própria e de uma esfera pública activa. Acreditamos que isso também se aplica a festivais, é nesse exercício crítico que podemos melhorar para vocês e com vocês. São co-criadores do festival.
Por exemplo, foram centenas de respostas vossas ao formulário de feedback que lançámos no website que nos ajudaram nesta 11ª edição.

Foram também alguns de vocês que contribuíram para a aquisição da Boomland no passado dia 28 de Setembro. Acreditamos que com ela o que se experiencia no festival pode ter uma vida mais longa. A sua compra só foi possível por termos contraído um empréstimo e iremos deixar em aberto um crowdfunding para quem quiser participar em mais um capítulo da história do Boom. Se quiseres saber mais vai AQUI.



Há uma constante na nossa espécie desde a Revolução Cognitiva de há 70.000 anos. O homem é um ser social, tudo se faz com outras pessoas ou em grupo. O Boom não é excepção. Começámos a produção cerca de Março de 2015. Contas feitas no final de Setembro de 2016,  trabalharam no festival 1882 pessoas e 763 voluntários de 47 países. A isto acrescentamos 895 artistas (música, performance de rua, conferências ou dança), mais de 200 workshops, 138 terapeutas.  Estiveram presentes Boomers de 154 países.

Mais importante ainda foi o ambiente amistoso, pacífico, positivo, de amor, compreensão entre pessoas de todo o mundo. O Boom é essa interacção e celebração positiva entre seres humanos com liberdade, respeitando-se mutuamente.



Após a enchente de 2014 decidimos reduzir o número de bilhetes disponíveis em 2016. Poderíamos ter optado por permitir o dobro de Boomers perante tanta procura porém mantivemo-nos sempre fiéis ao nosso princípio. Não acreditamos que o crescimento sem critério seja uma estratégia válida. Pode parecer estranho para alguns a nossa narrativa de questionamento da supremacia do crescimento, ou da explicação da nossa filosofia inerente a bilhetes, ou até algumas posições críticas sobre alguns temas. Acusam-nos de hipocrisia, de fazermos marketing new age encapuzado. É compreensível que o condicionamento social leve à desconfiança de um indivíduo sobre o outro, sendo neste caso o outro algo abstracto - afinal, o Boom é um festival.

Mas os festivais são pessoas, com princípios e valores humanos, são esses a nossa raiz; mais, os festivais devem marcar uma posição e não se cingirem apenas ao “entretenimento” ou a uma disneyficação. Não será a pressão pública para o crescimento que irá mudar o Boom, visto que as acções diárias e a dedicação colectiva de uma vasta equipa se move por princípios humanos.

Assim, a limitação de bilhetes foi um dos grandes temas desta edição. Gerou controvérsia e frustração para quem não os conseguiu, fazendo questão de o manifestar, principalmente nas redes sociais. Sentimos essa decepção mas os que estiveram presentes em 2016 poderão confirmar que a redução de pessoas e o aumento de serviços (ver tabela em baixo) - que prometemos em 2014 e cumprimos em 2016 - melhorou o conforto.

Estamos satisfeitos com a redução de público e não pretendemos aumentar a lotação do Boom 2018.



A realidade está em permanente mutação e nós em contínuo aperfeiçoamento sempre com a consciência de que podemos melhorar e vos dar experiências significantes.

Lançámos uma nova plataforma de venda de bilhetes mas assistimos a diversos problemas técnicos e muito tempo de espera na resposta aos vossos emails; durante os primeiros dias tivemos problemas com água nos chuveiros do Caravan Park B e em alguns restaurantes, no entanto, existiram mais 14% de chuveiros e os espaços comida aumentaram 28%  (com as suas necessidades de água inerentes); descobrimos falsificadores de pulseiras apesar da incrível massa de pessoas sinceras que são os Boomers; detectámos alguns Peace Keepers a terem comportamentos negativos com pessoas mas tivemos 357 stewards com profissionalismo e discrição; desenvolvemos uma estratégia de alteração/devolução de bilhetes para evitar falsificação e defender-vos, mas a data para o fazer provou-se curta - em 2018 teremos de aumentar a data limite para devolução; a quantidade de WCs compostáveis subiu 40%, porém, existiram mais problemas de odor do que no passado apesar de menos pessoas no Boom; quisemos dar mais arte e energia ao Chill Out Gardens, Alchemy Circle e mais instalações artísticas na Boomland contudo existiu menos decoração no Dance Temple; desenvolvemos uma nova metodologia para a entrada dos Boomers, infelizmente o tempo de espera ainda é longo (em grande parte devido à orografia da região).



No meio desta vontade de melhorar lançámos novos projetos: o Nataraj; o Eco Tech Hub; o NGO Django; Social Hubs no Camping; colocámos 16 bocas de incêndio ao longo de 4 km da Boomland para prevenir fogos; fundámos com outros parceiros a Psytrance Convention (1ª conferência exclusivamente dedicada a psytrance); e muitos mais serviços e infraestruturas de apoio do que no passado.

Nesta fase do mundo onde não apenas se normaliza a comida mas também os seres humanos, sentimos como imperativo correr riscos em projetos experimentais. Convidámos fabricantes de sistemas de som para apresentarem inovações como Ambisonics ou novos infrabass. Reconhecemos que nem tudo correu bem nos primeiros três dias no sistema de som do Dance Temple e em 2018 irão existir mudanças.

Estamos felizes com a diversidade e qualidade musical, cruzámos conceitos e várias gerações de artistas, convidámos alguns dos músicos/Djs/produtores mais criativos que habitam no Planeta e reforçámos a nossa mensagem ambiental, todos ajudaram a fazer da Boomland um exemplo de consciência social, artística, ambiental e humana. Todos ajudaram a fazer o Boom 2016.

Não olhamos para a Boomland como propriedade ou natureza para saquear. Antes a queremos como uma casa do conhecimento, da criação e da harmonia, um espaço de regeneração humana e ambiental. Em Dezembro de 2015 iniciámos um projecto de reflorestação de longo prazo em que plantámos 550 novas árvores (calculamos que tenham sobrevivido 80%). Lançámos o Boom Karuna Project, uma iniciativa solidária que reparte verbas com instituições locais.



Apesar de sermos um festival mundial, temos consciência da nossa responsabilidade para apoio da cultura independente em Portugal. Fizemos um grande esforço para promover o seu meio criativo. 100% da programação do Nataraj era portuguesa e/ou radicada em Portugal; 70% dos projectos que actuaram na Sacred Fire eram portugueses e lusófonos; 48% da música do Chill Out Gardens e 30% do Alchemy Circle era de projectos locais; pela primeira vez uma banda portuguesa abriu o Dance Temple e foram convidados dezenas de artistas e colectivos do país para criarem instalações em espaço público.

Em Idanha-a-Nova, um concelho em que (de acordo com os Censos 2011) o número de residentes empregados ronda os 2.583 e os pensionistas 4.495, sendo a taxa de desemprego de cerca de 15,9%, demos trabalho a 200 pessoas da região por ocasião do festival.

Estamos felizes com o que fizemos, mas queremos sempre melhor. A nossa lista de ideias é extensa e as edições são limitadas no tempo e nos recursos.

Mas é nesta reflexão que preparamos já a edição de 2018, lembrando-nos sempre dos sorrisos e da vossa amizade.

Aos Boomers, a toda a equipa, a todos os artistas, aos voluntários, a quem contribuiu e a todos os que fizeram e ajudaram o Boom 2016 - Muito Obrigado.

A nossa próxima newsletter será a “(Eco) Letter to the Boomers”.